O grito do Cerrado

O grito do Cerrado foi proclamado em alto e bom som pelos mais de mil participantes da 6ª edição do Encontro dos Povos do Cerrado, realizado em Brasília (DF) entre os dias 9 e 13 de setembro, no Memorial dos Povos Indígenas.

Organizado pela Rede Cerrado - associação que congrega mais de 100 entidades e organizações que atuam em prol da conservação do Cerrado, da qual o Vidágua faz parte, o Encontro reuniu comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, ambientalistas e acadêmicos em discussões sobre como preservar o bioma? como se livrar das ameaças do agronegócio? como garantir a sobrevivência dos povos do Cerrado? a dignidade das populações tradicionais? como produzir sem devastar o bioma? Questionamentos que não puderam ser respondidos na totalidade, mas ao menos despertaram para uma resposta política ao problema, que deve resolvida as custas de muita mobilização.

Neste sentido, o 11 de setembro, Dia Nacional do Cerrado, foi comemorado com uma ampla manifestação dos participantes, marcando o Grito do Cerrado 2009, que se deu com a tradicional corrida de toras do povo indígena e uma caminhada da Esplanada dos Ministérios até o Congresso Nacional para entregar em mãos a Carta dos Povos do Cerrado e pedir a aprovação da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que inclui o Cerrado como patrimônio nacional, a exemplo dos biomas Amazônico e Mata Atlântica.

O Cerrado é hoje o bioma mais devastado para dar lugar a soja, pastagens e outros grãos. O ritmo de desmatamento do bioma chega a ser 3 vezes superior ao da Amazônia, enquanto as queimadas no Cerrado exercem tanto ou mais influência no aquecimento global do que as que ocorrem na Amazônia, mas nem a sociedade nem o governo se atentam para esse fato. Em São Paulo resta apenas 1% de remanescente e outros estados como Minas Gerais e Mato Grosso estão caminhando para este cenário.

O Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, esteve presente na abertura do evento anunciando uma série de medidas para conter o desmatamento no Cerrado, incluindo o monitoramento do bioma e um fundo monetário de conservação. "O Cerrado deve ser tão valorizado quanto a Amazônia", declarou mais de uma vez no seu discurso, mas não detalhou nenhuma medida jurídica ou política imediata. Sem ouvir os participantes, o ministro se retirou do evento logo após seu discurso em meio a críticas e manifestações de "fica ministro para ouvir o povo do Cerrado". O representante da Rede Cerrado, o indígena Hiparidi Top Tiro desabafou "estamos cansados de ouvir e não sermos ouvidos".

Durante o evento, além dos painéis, debates e oficinas, foi realizada a grande Feira de Produtos do Cerrado, que evidenciou a riqueza do bioma em alimentos, cosméticos, fitoterápicos e artesanatos feitos através do pequi, do buriti, do babaçu e do jatobá, para citar poucos exemplos.

O Instituto Ambiental Vidágua marcou presença no evento, minsitrando uma oficina especifica sobre o Cerrado na mídia. A proposta foi discutir com os participantes a representação e visibilidade que o bioma tem na esfera midiática, formulando propostas para dar mais atenção ao Cerrado, colocando-o em evidência. Cerca de 40 pessoas de diferentes localidades - MG, BA, TO e MT - participaram da atividade, colocando suas problemáticas e assuntos que deveriam ter o respaldo da mídia.

A luta do Povo do Cerrado não pára por aí. No final do Encontro foi aprovada a Carta dos Povos do Cerrado que deverá ser encaminhada às instâncias políticas, pedindo medidas de preservação do bioma e respeito às comunidades tradicionais.

Fonte: www.vidagua.org.br